quinta-feira, 9 de abril de 2015

Sobre a morte da esperança.

É sempre um abismo seguir por um precipício chamado esperança. A esperança te faz caminhar por desertos cheios de dunas perigosas, navegar por oceanos repletos de tempestades e tubarões, correr em meio a um furacão. Tudo com uma pequena chama dentro de você de que você nunca vai se ferir, ou que pelo menos no fim não será nada grave. Que a kriptonita do seu Super Homem ou Mulher Maravilha está bem longe, mas no fim você sempre cai. Pois se tem uma coisa certa na esperança, essa coisa é a queda. E ao invés de ser rápida e quase indolor, ela é lenta. Ela te faz flutuar em meio a devaneios, em volta da loucura, dentro dos seus piores receios, para no fim, você cair morto. Morto, estatelado, duro e frio no chão. A esperança nunca mudou as coisas porque ela é só uma desculpa pra fingir que nada é tão ruim assim. Mas quase sempre é. A esperança não salva ninguém pois ela é sempre a última a levar o pé na bunda para que o pé que ela nos dê seja fatal.
Que a esperança então, seja artigo em falta no meu peito já que ela nunca mudou ou adiantou nada.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Perdendo e encontrando isqueiros.

Eu vivo perdendo isqueiros assim como vivo perdendo oportunidades. Eu vivo perdendo coisas. Na verdade não sei se algum dia as tive de fato, mas o fato é que eu vivo perdendo coisas. Por mim, pelas pessoas, pela vida. Eu não aguento mais esse jogo de perder.

Tento ler um livro ou ver tv mas a necessidade me invade feito o ar que entra em meus pulmões e então eu preciso intoxicá-los com fumaça de tabaco. Sentir aquele êxtase amargo (que no fundo me faz mal, eu sei) tranqüilizando minhas veias. Me levanto abruptamente e coloco um jeans surrado, um casaco preto qualquer, pego as chaves e coloco meus cigarros no bolso do jeans. Vou atrás de outro isqueiro.
Choveu mais cedo e o céu se mistura em cinza e preto. Está anoitecendo e o vento frio corta minha pele através do casaco fino. Desço a esquina olhando ao redor pensando em como fui parar ali, como eu tinha me tornado aquilo em que me tornei: um fracasso, se. Eu tentei fazer tudo certo. Mas o que é o certo é o errado? Não sabia exatamente a resposta mas me lamentava de todas as formas: profissional, familiar e amorosamente. Não queria, mas as vezes acho que sou quase digna de pena.

Todos os bares  ao redor estão fechados e eu tenho que andar até o próximo quarteirão. Anoiteceu.

Acho que faz tempo que anoiteceu em mim também, não sei. Talvez eu seja um céu todo preto que, vezenquando, consegue obter algumas estrelas para iluminá-lo. Só não sei mais se consigo obtê-las novamente
Avisto ao longe uma banca de jornal quase fechando e compro meu bendito isqueiro. Caminho uns passos e já posso sentir as gotas da tempestade que está vindo aí de novo começarem a cair. Acendo meu cigarro e logo na primeira tragada é como se todos os ligamentos do meu corpo estivessem se acalmando numa paz explodida em milhões de pequenos pedaços de fogo. Começa a chover e ao invés de ir para casa, me pego perambulando pelo bairro. Avisto as casas trancadas, os estabelecimentos fechando, as ruas vazias, e penso que aquilo tudo se parece muito comigo: cheias de pessoas que nem ligam muito para elas durante o dia e completamente solitárias durante a noite (com a exceção de que eu acabo só até durante o dia). O temporal despenca e eu corro atrás de algo que possa me proteger, e percebo o quão inútil isso é, afinal, quem está na chuva é para se molhar. Não é o que dizem por aí?

Sento em uma escada na porta de um lugar qualquer e fico ali, fumando aquele único cigarro enquanto sinto o maço inteiro se desmanchar no meu bolso. Tirei o capuz da cabeça e fiquei ali pensando, até que por fim, chorei a dor que por muito tempo estava contida em mim. Deixei a água descer pelo meu rosto e logo pelo meu corpo misturando-se com minhas lágrimas, me encharcando por inteira.

Pensei na grande bosta que está minha vida e no quanto preciso mudar isso. E fiquei ali, não sei por quanto tempo, mas tempo suficiente para a chuva passar. Levantei decidida a me reinventar por completo. As coisas deveriam e tinham de mudar.
Eu vivo perdendo coisas, mas às vezes, a vida te faz achar coisas também e a certeza disso, é o isqueiro velho que achei no bolso do casaco preto no momento em que enfiei as minhas mãos lá. Ás vezes demora tempo demais para a gente entender as coisas em apenas um segundo, e eu entendi que eu preciso mudar pra viver em paz.

 Acendi meu novo isqueiro. Minha nova certeza.

terça-feira, 31 de março de 2015

365 dias.

Um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias que não foram ao seu lado. Tormento. Trezentos e sessenta e cinco dias descobrindo que o inferno na vida é uma vida sem amor, sem o nosso amor. Dizem que nós somos melhores quando estamos com a pessoa certa. E eu era melhor quando estava com você - queria que tivesse sido recíproco. Às vezes tenho a sensação de que fui apenas mais um mero engano, um equívoco seu... Noutras acho que fui a coisa certa que apareceu no tempo errado. Será que um dia iremos saber? Não sei.
Um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias fazendo planos que nunca iriam se concretizar, imaginando viver coisas ao lado de quem mais me fez feliz. Loucura. Mas eu sei que você sempre foi bagunça e bagunça da boa baby, e do momento que eu te encontrei naquela tela de computador eu soube: você não iria sair da minha vida. E hoje, um anos depois eu só queria bater na tua porta e ser dessa vez a menina com a flor na mão (para te dar, claro) e te fazer abrir seu coração pelo menos uma vez pra me ouvir e acreditar em tudo o que eu disser, pois eu nunca fui tão real em minha vida...

Eu te amei desde a primeira vez que te vi sabia? Desde quando te vi de cima do skate atrás daquele muro e pensei "ai meu Deus como ela é linda!" desde do teu short marrom com camisa jeans, desde o meu skate e minha calça vinho com blusa do Arctic Monkeys. Em volta naquela enorme lagoa. Foi ali. Você se lembra? Desde então eu percebi que as coisas que eu via nos filmes podiam sim existir, porque você me fazia sentir assim: pela primeira vez dando certo. Você fazia eu me sentir infinita. E eu fui te amando e te amando e eu não consegui mais parar. Fui te amando tanto que acho que por vezes deixava meu jeito transparecer que nem tanto assim. Nem tanto assim quando era tudo e muito mais dentro de mim por ti. Desculpa se não matei tua insegurança, se não consegui te mostrar que eu sempre só tinha olhos e coração pra você, se eu te fiz fugir, se eu não soube ser melhor. É que quando eu erro é tentando sempre acertar, que as vezes quando não demonstro é quando eu mais quero demonstrar. É que as vezes eu sou mesmo assim: desajeitada por ter jeito demais. Hilário não é? Da pra entender?
Dia trinta e um de março: sempre foi o nosso dia, você sabia? Acho que não. Mas eu sempre soube. Sempre notei todos os seus detalhes (até aqueles imperfeitos que me irritavam) porque eu sempre amei tudo em você e mesmo querendo muito, nunca esperei nada em troca. Você me fez ver que amar é apenas isso: a m a r. Essa palavrinha de quatro letras que cabe o mundo inteiro dentro delas. Amar é amar aquilo que a pessoa é e faz você sentir, e não amar o que ela sente por você. E você sempre fez eu me sentir incrível, sabia? Você era o meu amuleto, minha sorte na vida de ter alegria e aimeudeus como eu fui feliz do teu lado mesmo com todo ciúme, com toda distância, com toda insegurança, mesmo com os empecilhos e tudo o que eu mais queria era te fazer sentir pelo menos metade disso.
Pela primeira vez eu soube: eu estava amando e isso não iria passar  nem tão cedo. Talvez um dia passe, talvez não, o que eu não quero que passe somos nós. Sempre tivemos uma ligação muito forte e eu só que você sabe. É isso que nos faz ser pra sempre nós e não apenas eu e você. Entende? Sei que um dia, ainda distante, eu possa gostar de alguém, talvez. Quem sabe casar sei lá. Talvez. Mas sinto do meu eu mais profundo que é você aquele alguém que sempre vai me ter consigo. Que é só estalar os dedos e eu volto. Mas como eu posso voltar se eu nunca fui embora?
Um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias e está tudo aqui ainda, do que você deixou. Será que um dia você vem arrumar? Porque eu continuo aqui. Porque eu me importo, eu amo, eu me preocupo, eu quero você sempre comigo e mesmo que eu tenha que te ver atolada em trabalho meio distante ou amando outro alguém eu sempre quero você perto de mim e sendo feliz. Quero ver você arrancar um enorme pedaço do mundo com esse teu brilho que pode iluminar o mundo inteiro. Porque você é meu Cazuza, o meu Chico, minha bossa nova, meu rock'n'roll, minha banda favorita, meu livro predileto, a rua que eu passo todo dia, o programa matinal da tv, o meu cigarro, a minha cerveja, o meu bem, o meu amor. E isso não é uma mentira de primeiro de abril.
Eu nunca vou deixar o que eu mais quero ter comigo.
E entre mais um milhão e quinhentas coisas que eu quero te dizer: Feliz um ano meu amor.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Aonde é o nosso lar?

Sinto que não há mais um lugar pra mim, que não há mais espaço para eu ser eu. O mundo gira tão depressa que às vezes parece devagar, mas o mundo sempre gira. E gira. Gira mundo cão!
Gira e me leve para outro lugar. Uma outra era, uma outra dimensão psicodelica que me faça acreditar que um dia as coisas hão de mudar, pois desde que o mundo é mundo, as pessoas são perdidas. Será que a gente nasce para se encontrar ou é a gente que se perde no caminho?
Não venta mais pra cá e os dias vão queimando como cigarro: cinzas e com gosto amargo, e que gosto amargo tem a vida quando ela não sabe ser doce. Será que é a gente que azeda? O tempo vai dizer.... Ou não. Às vezes tenho a impressão de que o tempo é mudo e em sua mudisse é que aprendeu a dizer muita coisa. Ou não também... O problema é que a gente nunca sabe e passa a vida tentando saber.
Será que a vida é algo além de esperar? Estou esperando a resposta. Se alguém souber, favor me contactar, não tenho nome, não tenho casa, não tem lugar pra mim, não tenho nada meu. Apenas sonhos. Mas espero que um dia eu pare de sonhar e comece fazer tentando encontrar nesse mundo louco, o meu lar pra viver.

Será que todo mundo tem um lar? Aonde ele deve ser?

sábado, 21 de fevereiro de 2015

E aí?

É que eu gostei desse teu cabelo colorido, descolado, logo de cara. E por falar em cara, essa tua linda deve ser o caminho para um precipício bem alto, aposto que muitos corações já morreram aí. O pior é que eu sempre tive atração por precipícios, - acho que no fundo eu sempre quis voar - então eu quase sempre me jogo. Me jogo e me arrebento toda. Fico ali estatelada no chão, sangrando até a terra me renascer em flor. O problema das flores é que elas sempre murcham... Mas então vem alguém com uma cara linda, um cabelo diferente, o jeito de vilã de filme e me rega! Nem precisa ser muito e eu já me renasço das cinzas do meu próprio cigarro, feito uma fênix, que faz de tudo para fugir dos balaios. É que é tão raro alguém aparecer, imagina alguém assim né? O melhor mesmo é renascer.

Precipício, flor e cigarro. Eu já fui e sou muitas coisas. Já quebrei alguéns, já tive um amor que me matou (aposto que você também morre por alguma coisa). Mas não me importa de ser um zumbi cinza me divertindo nas cores do teu cabelo roxo, azul, verde... Um verdadeiro arco-íris de deliciosa diversão.

E aí, quer se perder comigo?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Meu futuro (que nunca houve) com você.

Saí da faculdade reparando que os discos do Cazuza nunca faltam no meu carro. Eu queria que algum deles fosse seu, que você tivesse me emprestado no começo do namoro, meio arranhado coisa e tal. Enfim. Eu os ouço indo ou voltando da faculdade. Você começou a trilhar seu caminho primeiro que eu, né? agora é doutoura, e eu sempre quis ser rockstar. Uma das poucas coisas em nós que nunca combinou.
Em um desses dias imaginei como teriam sido teus dias corridos na universidade. Quantas vezes será que colocaste o riso que antes era tão meu, nas bocas de outros alguéns? Você sabe que isso sempre me causou desespero... E aqui, recostando minha cabeça no banco do carro, eu é que consigo sorrir ao pensar nisso. Eu sempre tive pavor de te perder amor, e olha só aonde estamos... Seria até bonito se não fosse meio trágico. Mas todo grande amor não é amor se não for doído não é mesmo? De repente uma buzina soa lá fora me dispersando de meus devaneios, ligo o carro pensando que podia muito bem ser eu, indo te buscar na aula e quando chegasse, iria tentar tirar a tua atenção de um papo com alguém irrelevante (sempre coloquei defeitos nos outros por puro medo de você encontrar algo melhor que eu). Eu quase consigo te ver gritando "caaaalma aííí" revirando os olhos com um sorriso meio sapeca - a nossa troca de olhares sempre dizia muito, a gente se entendia. A gente poderia ter passado por cada coisa, né? Desde a gente fugindo, a falta de grana pro condicionador, até o sanduíche do Bob's em casa só pra te agradar.
Acontece que desde os meus 19 você me prometeu que tudo iria ficar bem, e eu, agora com meus 20 e poucos anos, ainda espero ficar. E já não importa se será "minha flor, meu bebê" ou "amor meu grande amor" para o mundo ficar mais bonito. De novo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Sobre ficar bem, fracassos e tentar.

"Um dia eu vou ficar bem."
Era nisso que ela pensava, era nisso em que ela queria acreditar com força. Que um dia ela ficaria bem da falta de dinheiro, da falta de certeza, daquele seu grande amor que partiu. Ela não só queria, como precisava ficar bem também porque tudo isso doía. Não essa dor de três letras que todo mundo diz que sente, mas sim aquela dor que faz o peito esmagar, se surrar todo levando-o quase ao tamanho de um mísero grão de arroz. Uma dor sufocante, inquietante, que a fazia apenas sobreviver no limbo dos dias ao invés de viver de fato, transformando-a em um semi-robô no piloto automático.
Era algo do qual ela necessitava: ficar bem. O problema, é que ela não conseguia se lembrar se alguum dia já estivera bem, mesmo fazendo um enorme esforço, ela não conseguia obter resposta alguma. Era como se tudo fosse uma grande bosta desde que ela conseguia se lembrar. E ela sabia que a vida tinha algo de bonito por aí, que havia cores e um mundo inteiro afora para explorar, ela só não conseguia ver as coisas acontecendo para ela. Pelo menos não de verdade. A começar pelas pessoas: elas sempre a deixavam, conseguiam o que queriam e iam embora. Lhe causavam expectativas, alimentavam suas mais dóceis ilusões para depois decepcioná-la e abandoná-la a mercê de um barco à deriva prestes a naufragar, que era a sua vida. Ninguém nunca a quis de verdade. Nem seus pais, - ela sempre foi um erro e ela sabia - nem aquele amor que ela achava que só existia nos filmes quando finalmente o encontrou. Encontrou e constatou que amar era real. Achou que teve sorte uma vez na vida e realmente teve, mas não por muito tempo. Do nada veio as desculpas e mais do nada ainda sua partida. Deve ter encontrado algo melhor e a trocou. Assim, de repente num vapt-vupt fatal. Talvez até ela mesma em algum momento da vida teria se trocado também. Mas ela era boa em amar não era? Só não era boa em ser amada.
Se sentia inútil na maior parte do tempo mesmo tendo dentro de si uma vontade enorme de crescer, mas parecia que nada dava certo para ela. As coisas não aconteciam. Para ela e mais uns milhões de pessoas espalhadas pelo mundo, com problemas bem maiores dos que o dela. Ela sabia. Mas isso nunca fez as coisas serem menos duras ou difíceis. Outro problema que a incomodava constantemente era a falta de grana. Pensava que poderia muito bem sentir e passar por todas essas coisas sim, mas que seria bem melhor sofrer em Paris bebendo champanhe, do que aqui nesse apartamentozinho que nem dela é, no centro de cidade. O mundo era um redemoinho faminto e a devorava. Ela também tinha fome, queria devorá-lo também. Mas o que uma garota de quase 20 e pouquinhos anos poderia fazer a um mundo tão grande? "Recolher-se a sua insignificância, é claro" ela pensou. E foi o que fez. Parou de ter pena de si por um instante, guardou sua bebida no armário da pequena sala, deixou os restos de cigarro no cinzeiro na mesa ao lado e deitou-se em sua cama. Adormeceu rápido pensando que amanhã era sempre um novo dia. Mesmo que fosse para fracassar de novo... Ela podia sempre tentar, não podia?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

transmitindo a realidade.

Da varanda vinha um vento frio e devagar, ela levantou-se da frente de seu lap top em que havia passado o dia procurando emprego e debruçou-se na sacada. Acendeu seu velho marlboro vermelho e vestindo apenas um blusão branco com sua calcinha preferida, ficou passeando o cigarro por entre seus dedos.
Ela vivia em um apartamento pequeno alugado no centro da cidade, e sempre gostava de olhar a vista do centro a noite. Sem carros ou pessoas na rua, apenas o silêncio.
Ela não sabia o que esperar daquela noite e nem de nenhuma outra ultimamente. Ela, que sempre fez da noite a sua casa não sabia o que esperar dela. O vento lá fora açoitava as árvores e fazia de seus cabelos redemoinhos, mas o verdadeiro redemoinho acontecia em sua cabeça. Ela girava e girava e nada tinha haver com as mil doses de rum que antes havia tomado, não, era mais complexo que isso. Sua mente doía, centrifugava um turbilhão de coisas. Perguntas, sentimentos e sensações passeavam por ali misturando-se com a fumaça de seu cigarro subindo aos céus junto com o vento. Tudo era estranhamente muito novo e ao mesmo tempo velho demais para ela e ela tinha medo. Um medo enorme de fracassar., o que consequentemente à fazia a fracassar por nada fazer. Ela vivia com a ajuda dos pais, havia quase desistido de seus sonhos, mal conseguia pagar as contas e nada tinha. O medo lhe paralisava e a impulsionava a continuar no nada. Havia chegado uma hora em que ela não sabia se o cheiro de queimado que sentia, era de seus neurônios entrando em combustão de tanto pensar ou se era de seu cigarro que havia quase chegado ao fim e estava quase queimado seus dedos.
Nada estava fácil, mas quando se tratava dela nunca era, não é mesmo?
Sua pele branca começava a ficar fria e ela mal cogitava a ideia de sair dali. Mal trocava o peso dos pés de um para outro, só fumava. Um, dois, três cigarros. O gosto amargo impregnando sua boca, garganta, mente. O que será que estava havendo com ela? Ela se perguntava. Não obtinha resposta alguma. Ou várias, como: "estou ficando louca" e vai ver ela estava mesmo. Pensar demais acaba deixando a gente fora de si. E falando em pensar, esse era o momento em que ela começa a imaginar que se aquilo fosse um filme, chegaria alguém abraçando-a por trás e dizendo que tudo ficaria bem, fazendo-a acreditar nisso. Ou que da sacada, ela avistaria algo que lhe faria mudar sua vida, como em um clichê. Então riu com desdém negando com a cabeça: aquilo não era um filme, aquilo não era ficção, aquilo era a vida real. E a vida real batia em sua porta todo dia de manhã.
Pensou, repensou e desistiu. Concluiu que pensar demais só fazia ela pensar mais besteiras, dando esperanças as suas ilusões. Então deu meia volta e se jogou na cama com a garrafa de rum que estava na mesa perto da varanda. Bebeu mais uns goles, viu o teto do quarto girar e quis que o mundo parasse de correr tão depressa. Adormeceu.
Acordou com o sol entrando pela mini varanda e batendo em seu rosto. Já deviam ser meio-dia e ela estava atrasada para começar sua vida. De novo.