domingo, 2 de maio de 2021

queria ter para onde ir

queria ter para onde ir, fugir, correr para outra galáxia onde eu pudesse gritar. gritar a plenos pulmões o peso que é carregar seu mundo nas costas. mundo esse que ao ver de outros até pode parecer fácil, frágil, quase nada, besteira sem preocupação, mas só você sabe o caos e o furacão de ser você. e sentir o que você sente. é como um córrego de um rio desenfreado, buscando a toda e com toda a força seu ponto de partida e de chegada, seu lugar no mundo. linhas e entrelinhas se embaraçam feito o fio da navalha que sempre é apontada para a sua garganta. tem sempre uma guilhotina lhe esperando na esquina e mesmo que aos tropeços você consiga desviar, há tiros a queima roupa esperando para te pegar. viver é brusco, um risco e tem sido um inferno esses dias.

queria poder ser, gritar, chorar, fugir...

segunda-feira, 8 de março de 2021

cometa solitário.

sou um cometa viajando sozinho pela galáxia,
observando solitário as estrelas em suas contelações abraçadas
caminhando lentamente com toda a minha força, com todo o meu fogo,
me sentir acolhido assim e não com socos.
às vezes por milésimos de segundos,
às vezes por séculos,
olhando tudo ao meu redor,
procurando encontrar soluções que humanos veem nos livros
para matar o aperto em meu peito quente.
vaguei por planetas, encontrei asteróides, vi até humanoides contemplando a lua,
por diversas vezes querendo fazê-la sua.
mas tudo o que encontrei foram mais bolas de neve e gelo
vagando distantes mas nunca perto de mim
transformando meu coração em rocha assim.
sou um cometa vagando por aí solitário
que de tanto andar e tanto ver,
aprendeu que na vida tem coisas tão lindas
mas também que por mais que a gente queira,
há cenários que não podem serem mudados.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

ainda lembro.

eu buscava poesia em todo lugar, até que você me apareceu. eu buscava sentir o coração cheio de outra coisa que não fosse nada, até que você me encontrou. perdida naquele lugar, tentando fazer graça, lutando na raça por qualquer coisa que fosse, algo para me sentir viva. eu buscava me encontrar e tudo o que fiz foi me perder. me perdi nos cachos de cazuza das tuas músicas, nas ruas chiques e aconchegantes do leblon, nos museus da cidade, nas tuas palavras que se enlaçavam em mim feito corda enfeitaçada, repleta de feitiços para me encantar. e eu acreditei nelas. nas tuas rimas ritmadas, na tua confusão sonolenta de manhã ao acordar cedo, nos choros loucos de ciúmes bobos sem sentido, nas mãos entrelaçadas em segredo, nos beijos dados em uma surpresa que no fundo era esperada, no jeito bobo em que eu ficava sempre que em ti pensava. eu acreditei, eu realmente acreditei. mas assim como uma brisa fresca de verão, um sonho doce de inverno, uma música leve de outono e uma poesia inspiradora de primavera, como veio você se foi: de repente. e eu fiquei em frangalhos. em cima de uma cobertura de madrugada foi onde eu descobri como era perder algo que você sempre esperou e desde então eu nunca mais fui a mesma.

mesmo agora anos depois, você que não sentiu o mesmo já se esqueceu de tudo e eu vira e mexe nas brechas do tempo me pego pensando no amor jovem que a gente viveu. 

não sei como está sua vida, nem sei por onde anda agora mas espero que saiba que mesmo de longe e nunca mais pra ti aparecendo, eu ainda me lembro e te mando muito amor.

obrigada por tudo de bom que me fizestes sentir, que sejas feliz minha flor.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

forasteiro

caminhei por milhas
conheci vários rostos
percorri alguns corpos
provei diversos gostos

fiz e desfiz malas
enchi e esvaziei mochilas,
copos então nem se fala
vi tudo mudar de lugar

vi gente chegando e gente sumindo
causei algumas lágrimas e sorrisos
passeei por algumas camas
escrevi meu nome pelos muros

vi algo divino
e vi o inferno chegar
a fome me atingiu
e já matei a sede em  noites de luar

rodei por aí me perguntando
onde é que andará
o que há tanto me foi perdido,
tanto que nem sei mais se algum dia havia sequer existido

não sei se tenho para onde voltar,
talvez minha casa seja em qualquer lugar
onde finalmente eu possa achar
o meu tão perdido eu

forasteio por aí
procurando encontrar
o que tiver que ser meu.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

fogo poético.

talvez eu devesse devorar seu corpo enquanto desvendo a sua alma, talvez eu devesse caminhar pelas mais perversas - e secretas - curvas mapeando um caminho só meu por entre tuas entranhas, talvez eu devesse sentir o gosto que você tem na minha língua e então devorar-te uma vez mais só para sentir em minha boca o gosto do teu mel. talvez eu devesse entrelaçar nossas mãos como cordas de um juramento perpétuo e solene e entre suspiros sôfregos assinar um contrato que perpetua tua essência em mim. talvez eu devesse enroscar-me em tuas pernas enquanto ocupo-me de seu prazer, talvez eu devesse deixar os resquícios de nosso suor matar a sede um no outro, talvez eu devesse marcar tua pele como se fosse minha, talvez eu devesse te revirar do avesso de fora pra dentro, do teu ventre pra fora. talvez eu devesse no sentido mais literal da palavra te comer e saborear, talvez eu devesse então te idolatrar como uma musa dessas de cinema, talvez eu devesse beijar cada parte do teu corpo e por fim talvez, eu devesse conhecer teu fogo. e me queimar nele.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

clichê amargurado.

que clichê esse meu sonho que sonho acordada de que algum dia alguém note por fora e me enxergue por dentro, que decida que valho alguma música para se dedicar, um filme para se ver junto, um livro que pudesse escrever… que clichê imaginar danças pela chuva sem ligar para a roupa que vai molhar, risadas pelos dias ensolarados no parque da cidade, pelos segredos trocados quando mais ninguém podia ver. que clichê imaginar que algum dia alguém perdido por aí, fosse notar quem eu sou. é difícil imaginar alguém disposto a enxergar, quem dirá sentir, ninguém está preparado para esse show. que clichê imaginar que um dia estaremos todos bem, bem demais para sermos tudo aquilo que lemos em páginas amareladas dos livros clichês e que clichê imaginar que algum dia eu vou encontrar alguém para isso tudo dividir em qualquer passo que dou.
é, que clichê amargurado sou..

emaranhados.

eu sou um emaranhado de palavras
um emaranhado de cabelos ao vento, desgrenhados
um emaranhado de pensamentos desconexos que se cruzam o tempo todo,
passando então a fazer algum sentido

eu sou um emaranhado de tempo perdido
um emaranhado de ilusões descabidas
um emaranhado de sentimentos de alguém  que passa sempre despercebida
e acaba sempre ficando perdida

eu sou um emaranhado de coisas que queria dizer e que acabam ficando por aqui
eu sou um emaranhado de lugares que ninguém quer ir
eu sou um emaranhado de músicas que ninguém mais ouve
eu sou um emaranhado de coisas que ninguém sabe o que houve

eu sou um emaranhado bagunçado
de coisas que tento descrever
e então vejo,
que não sou capaz de dizer.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

lobo feroz.

tem algo quebrado aqui dentro,
algo fixado em minhas entranhas como o mais perigoso vírus.
tem um grito preso, entalado em minha garganta
que quer se deixar explodir com o vento.

tem um fardo de um milhão de toneladas em meus ombros
e em meus calcanhares já se encontram calos demais.
nada me parece como naqueles contos
onde um cavalo branco irá aparecer com alguma solução sagaz.

o espelho me conta mentiras que me soam como verdades sinceras,
as revistam me mostram histórias que não precisam ser reais
há beleza em tudo o que se pode ver,
mas não nos sentimentos capaz de enxergar.

o medo me sussurra histórinhas ao pé do ouvido que arrepiam os cabelos
dois pés parados, empacados no mesmo lugar,
e agora nem a luz do luar me inspira a correr.
quem me dera ser um lobo feroz capaz de tudo fazer.