sábado, 21 de fevereiro de 2015

E aí?

É que eu gostei desse teu cabelo colorido, descolado, logo de cara. E por falar em cara, essa tua linda deve ser o caminho para um precipício bem alto, aposto que muitos corações já morreram aí. O pior é que eu sempre tive atração por precipícios, - acho que no fundo eu sempre quis voar - então eu quase sempre me jogo. Me jogo e me arrebento toda. Fico ali estatelada no chão sangrando até a terra me renascer em flor. O problema das flores é que elas sempre murcham... Mas então vem alguém com uma cara linda, um cabelo diferente, o jeito de vilã de filme também bem diferente e me rega! Nem precisa ser muito e eu já me renasço das cinzas do meu próprio cigarro. É que é tão raro alguém aparecer, imagina alguém assim né? O melhor mesmo é renascer.
Precipício, flor e cigarro. Eu já fui e sou muitas coisas. Já quebrei alguéns, já tive um amor que me matou (aposto que você também morre por alguma coisa). Mas não me importa de ser um zumbi cinza me divertindo nas cores do teu cabelo roxo, azul, verde... Um arco-íris de deliciosa diversão.

E aí, quer se perder comigo?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Meu futuro (que nunca houve) com você.

Saí da faculdade reparando que os discos do Cazuza nunca faltam no meu carro. Eu queria que algum deles fosse seu, que você tivesse me emprestado no começo do namoro, meio arranhado coisa e tal. Enfim. Eu os ouço indo ou voltando da faculdade. Você começou a trilhar seu caminho primeiro que eu, né? Doutora e eu rockstar. Uma das poucas coisas em nós que nunca combinou.
Em um desses dias imaginei como teriam sido teus dias corridos na universidade. Quantas vezes será que colocaste o riso que antes era tão meu, nas bocas de outros alguéns? Você sabe que isso sempre me causou desespero... E aqui, recostando minha cabeça no banco do carro, eu é que consigo sorrir ao pensar nisso. Eu sempre tive pavor de te perder amor, e olha só aonde estamos... Seria até bonito se não fosse meio trágico. Mas todo grande amor não é amor se não for doído não é mesmo? De repente uma buzina soa por aí me dispersando de meus devaneios... Ligo o carro pensando que podia muito bem ser eu te buscando na aula, tentando tirar a tua atenção de um papo com alguém irrelevante (sempre coloquei defeitos nos outros por puro medo de você encontrar algo melhor que eu). Eu quase consigo te ver gritando "caaaalma aaaí" revirando os olhos com um sorriso meio sapeca - a nossa troca de olhares sempre dizia muito, a gente se entendia. A gente poderia ter passado por cada coisa, né? Desde a gente fugindo, a falta de grana pro condicionador, até o sanduíche do Bob's em casa só pra te agradar.
Acontece que desde os meus 19 você me prometeu que tudo ia ficar bem, e eu, agora com meus 20 e poucos anos, ainda espero ficar. E já não importa se será "minha flor, meu bebê" ou "amor meu grande amor" para o mundo ficar mais bonito. De novo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Sobre ficar bem, fracassos e tentar.

"Um dia eu vou ficar bem."
Era nisso que ela pensava, era nisso em que ela queria acreditar com força. Que um dia ela ficaria bem da falta de dinheiro, da falta de certeza, daquele seu grande amor que partiu. Ela não só queria, como precisava ficar bem também porque tudo isso doía. Não essa dor de três letras que todo mundo diz que sente, mas sim aquela dor que faz o peito esmagar, se surrar todo levando-o quase ao tamanho de um mísero grão de arroz. Uma dor sufocante, inquietante, que a fazia apenas sobreviver no limbo dos dias ao invés de viver de fato, transformando-a em um semi-robô no piloto automático.
Era algo do qual ela necessitava: ficar bem. O problema, é que ela não conseguia se lembrar se alguum dia já estivera bem, mesmo fazendo um enorme esforço, ela não conseguia obter resposta alguma. Era como se tudo fosse uma grande bosta desde que ela conseguia se lembrar. E ela sabia que a vida tinha algo de bonito por aí, que havia cores e um mundo inteiro afora para explorar, ela só não conseguia ver as coisas acontecendo para ela. Pelo menos não de verdade. A começar pelas pessoas: elas sempre a deixavam, conseguiam o que queriam e iam embora. Lhe causavam expectativas, alimentavam suas mais dóceis ilusões para depois decepcioná-la e abandoná-la a mercê de um barco à deriva prestes a naufragar, que era a sua vida. Ninguém nunca a quis de verdade. Nem seus pais, - ela sempre foi um erro e ela sabia - nem aquele amor que ela achava que só existia nos filmes quando finalmente o encontrou. Encontrou e constatou que amar era real. Achou que teve sorte uma vez na vida e realmente teve, mas não por muito tempo. Do nada veio as desculpas e mais do nada ainda sua partida. Deve ter encontrado algo melhor e a trocou. Assim, de repente num vapt-vupt fatal. Talvez até ela mesma em algum momento da vida teria se trocado também. Mas ela era boa em amar não era? Só não era boa em ser amada.
Se sentia inútil na maior parte do tempo mesmo tendo dentro de si uma vontade enorme de crescer, mas parecia que nada dava certo para ela. As coisas não aconteciam. Para ela e mais uns milhões de pessoas espalhadas pelo mundo, com problemas bem maiores dos que o dela. Ela sabia. Mas isso nunca fez as coisas serem menos duras ou difíceis. Outro problema que a incomodava constantemente era a falta de grana. Pensava que poderia muito bem sentir e passar por todas essas coisas sim, mas que seria bem melhor sofrer em Paris bebendo champanhe, do que aqui nesse apartamentozinho que nem dela é, no centro de cidade. O mundo era um redemoinho faminto e a devorava. Ela também tinha fome, queria devorá-lo também. Mas o que uma garota de quase 20 e pouquinhos anos poderia fazer a um mundo tão grande? "Recolher-se a sua insignificância, é claro" ela pensou. E foi o que fez. Parou de ter pena de si por um instante, guardou sua bebida no armário da pequena sala, deixou os restos de cigarro no cinzeiro na mesa ao lado e deitou-se em sua cama. Adormeceu rápido pensando que amanhã era sempre um novo dia. Mesmo que fosse para fracassar de novo... Ela podia sempre tentar, não podia?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Transmitindo a Realidade.

Da varanda vinha um vento frio e devagar, ela levantou-se da frente de seu lap top em que havia passado o dia procurando emprego e debruçou-se na sacada. Acendeu seu velho marlboro e vestindo apenas um blusão branco, ficou passeando o cigarro por entre seus dedos. Ela vivia em um apartamento pequeno alugado no centro da cidade, e sempre gostava de olhar a vista do centro a noite. Sem carros ou pessoas na rua, apenas o silêncio.
Ela não sabia o que esperar daquela noite e nem de nenhuma outra ultimamente. Ela, que sempre fez da noite a sua casa não sabia o que esperar dela. O vento lá fora açoitava as árvores e faziam de seus cabelos redemoinhos, mas o verdadeiro redemoinho acontecia em sua cabeça. Ela girava e girava e nada tinha haver com as mil doses de rum que antes havia tomado, não, era mais complexo que isso. Sua mente doía, um turbilhão de coisas, perguntas, sentimentos e sensações passeavam por ali misturando-se com a fumaça de seu cigarro. Tudo era estranhamente muito novo e ao mesmo tempo velho para ela e ela tinha medo. Um medo enorme de fracassar o que consequentemente à fazia a fracassar por nada fazer. Ela vivia com a ajuda dos pais, havia quase desistido de seus sonhos e nada tinha. O medo lhe paralisava e a impulsionava a continuar no nada. Havia chegado uma hora em que ela não sabia se o cheiro de queimado que sentia, era de seus neurônios entrando em combustão ou de seu cigarro que havia chegado ao fim e estava quase queimado seus dedos. Nada estava fácil, mas quando se tratava dela nunca era, não é mesmo?
Sua pele branca começava a ficar fria e ela mal cogitava a ideia de sair dali. Mal trocava o peso dos pés de um para outro, só fumava. Um, dois, três cigarros. O que será que estava havendo com ela? Ela se perguntava. Não obtinha resposta alguma. Ou várias, como: "estou ficando louca" e vai ver ela estava mesmo. Pensar demais acaba deixando a gente fora de si. Esse era o momento em que ela pensa que se aquilo fosse um filme, chegaria alguém abraçando-a por trás e dizendo que tudo ficaria bem fazendo-a acreditar nisso, ou que da sacada, ela avistaria algo que lhe faria mudar sua vida. Então riu com desdém balançando a cabeça: aquilo não era um filme, aquilo não era ficção, aquilo era a vida real. E a vida real batia em sua porta todo dia de manhã.
Pensou, repensou e desistiu. Concluiu que pensar demais só fazia ela pensar mais besteiras, dando esperanças as suas ilusões. Então deu meia volta e se jogou na cama com a garrafa de rum que estava na mesa perto da varanda. Bebeu mais uns goles, viu o teto do quarto girar e rodopiou até parar no pé da cama. Adormeceu.
Acordou com o sol entrando pela varanda e batendo em seu rosto. Já deviam ser meio-dia e ela estava atrasada para começar sua vida. De novo.